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quarta-feira, 16 de março de 2011

Salgado Maranhão



Sexydade


Vou abrir artérias
em teu cimento,
em tua alma de slogan,

te violar;

vou cavar um duto
em teu coração de gueto,

arar teu saara.

Não adianta fugires
com teus cadáveres
no micro-ondas,
com tuas bundas S. A.

Vou te desmontar,

iluminar os buracos
da tua cara.



Caniboys

I

Não se matam mais humanos para consumo,
pra fazer mingau de vísceras.

Não se matam mais em rituais
com tambores em volta da fogueira:
o olhar da presa esbugalhado
e heróis uivando para os deuses.

Matam-se pelo que não tem nome.

Mudaram-se os dígitos da insânia cíclica
no site da morte e sua noite metafísica.


II

O que quer um matador
em sua alma de aluguel
e seu coração de breu?

Por acaso busca o céu,
ao destroçar sua presa
com a devoção de quem reza?

Por que lhe negar revanche,
ao decretar seu desmanche?

O que move um matador
na explosão do disparo?
Algum diamante raro?

Algum tesouro escondido
que se evola no estampido?

O que busca um matador?
Busca – por acaso – grana?
Busca, na infâmia, fama?

Acaso, a vida é o dízimo
de sua igreja de abismo?


Salgado Maranhão
Caxias – MA (1953)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ferreira Gullar



Universo


O que vi do universo
até hoje foi pouco
mas, se penso em quanto meço,
posso dizer que foi muito.

Sei, de ler, que o universo
é de tais dimensões
que a própria luz só o atravessa
depois de bilhões e bilhões

de anos, e que nele há
multidões de galáxias e sóis
que talvez já morreram, antes
de chegarem sua luz até nós.

Deste modo, é correto dizer
que o céu que ora espio é passado
e que até pode ser que
o universo que vejo já se tenha acabado.

Mas, de fato, não vejo
a não ser nas revistas
de astronomia: o lampejo
espantoso de infinitas

constelações a brilhar
num abismo espectral e difuso
de gases e poeira estelar
que me deixa confuso.

E assim, assustado e mudo,
bem menor que um ínfimo
grão de poeira, contudo,
sou capaz de apreender, no meu íntimo,

essas incontáveis galáxias,
esses espaços sem fim,
essa treva e explosões de lava.
Como tudo isso cabe em mim?

O fato é que qualquer vasta nuvem
prenhe de sóis já mortos ou futuros
não possui consciência, esse obscuro
fenômeno surgido aqui na Via Láctea,

ou melhor, na Terra, e talvez
somente nela, não se sabe por que,
mas que permite ao cosmos perceber-se
a si mesmo, e ter olhos para se ver.

Olhos que são os nossos,
lentes minúsculas mas sensíveis
que captam a luz das nebulosas
vinda do espaço e tempo inconcebíveis.

É o que dizem, pois tudo
o que vejo é, à noite, apenas o brilhar
de distantes luzes no escuro.
São estrelas? Planetas do sistema solar?

Somos algo recente e raro
no universo, como rara
é também a própria luz
dos sóis deste sol que nos aclara.

Todo o universo é treva.
Inalcançável vastidão escura
dentro da qual os sóis, as explosões
de gás e luz são exceções.

O universo na sua vastidão vazia
é espaço e treva, é matéria fria
em que não há o mínimo sinal
de vida ou consciência; o que é mental

nele, ao que se sabe, está em nós,
no mínimo do mínimo do existente
e o que também na treva luze é nossa voz
inaudível no espantoso vão silente.

Vi pouco do universo: afora a asa
de luz e pó da Via Láctea, o que conheço
são as manhãs que invadem minha casa


Ferreira Gullar
São Luís – MA (1930)

domingo, 10 de outubro de 2010

Salgado Maranhão



Deslimites 10
(Taxi blues)



eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
– eu sou a luta.
o que há sido entregue aos urubus
e de blues
em
blues
endominga as quartas-feiras.
– eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou o ferro. eu sou a forra.

e fogo milenar dessa caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco as estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
eu sou a lança,
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouço a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

Eu sou a luz em seu rito e sombras
– esse intocável brilho.


Salgado Maranhão
Caxias – MA (1953)