sábado, 27 de agosto de 2011
José Inácio Vieira de Melo
Registro da fala do silêncio
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
José Inácio Vieira de Melo
Foto/Divulgação: Ricardo Prado
Paz
Eu,
que venho de tempestades,
anuncio a calmaria.
A violência
que existia em mim
rasguei na bala.
Toada da despedida
Para Antonia Torreão Herrera
Certo. Temos que ir.
E, quando damos o passo,
muito do que somos fica.
Muito mais seremos.
Inevitável a única certeza:
um dia a Derradeira vai lamber
a tua boca e já estarás
habitando noutras plagas.
Não te aperreies, é assim mesmo:
a despedida é a véspera do encontro
(e o mundo – que nem peão –
continua no arrodeio, na ladainha).
Amanhã, quiçá, estaremos juntos
nos favos de mel das europas
ou no estrume das vacas leiteiras.
Vamos cumprir as quadras da vida!
Cerca de Pedra
Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.
José Inácio Vieira de Melo
Olho d'Água do Pai Mané - AL (1968)
terça-feira, 28 de setembro de 2010
José Inácio Vieira de Melo
Foto/Divulgação: Ricardo Prado
Invenção da Poesia
Para Gerardo Mello Mourão
Pele vestida, distribuída e refeita,
parto para o princípio do labirinto.
Parto e principio o labirinto.
Na sua duração se abre o círculo
do espanto.
(Onde o centro? Que duração?).
Musa, teu vestido tem os novelos
da formosura!
O partir desenrola a ausência
e a pausa para o instante se cumpre.
De meu bergantim de ouro eu te informo
um sorriso.
Musa, é sempre a plena estrela
que tem a cauda dos rouxinóis
e que traz a curva da tua sombra.
Em teu ponto começa a extensão do mar,
e teu ponto guarda o profundo início.
E parto,
que a peripécia não é chegar,
que o coração só tem um fim:
ao som do coro das sereias
cantar o ciclo da origem.
José Inácio Vieira de Melo
Olho d'Água do Pai Mané - AL (1968)
sexta-feira, 16 de abril de 2010
José Inácio Vieira de Melo
Foto/Divulgação: Ricardo Prado
Estas rosas que vês em mim são brasas.
Por isso, muito cuidado ao tocar
em suas pedras – pétalas sagradas.
Minhas palavras ardem a forjar
estas flores que canto por prazer
e que dão febre e fazem delirar.
Meu coração é mesmo a rosa viva.
Por isso, muito carinho ao pegar
suas pétalas – pedras tão aflitas.
José Inácio Vieira de Melo
sábado, 5 de dezembro de 2009
José Inácio Vieira de Melo

Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.
Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.
Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dar meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.
Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.
Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.
José Inácio Vieira de Melo
Olho d'Água do Pai Mané - AL (1968)