Mostrando postagens com marcador * São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador * São Paulo. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de junho de 2012

Rosana Banharoli


Foto/Divulgação: Mário Barbosa


Comunhão


A constelação
soluça luz no universo
e reflete no espelho
do tempo
meu mundo interior



Meu mundo Sísifo


O risco de escavar o tempo
É o de sentir o vento tirar as máscaras
E só restar o incômodo de viver nu
E só



Ninho
Para Claudio Willer


Nas barbas do frio,
percorri a noite.

Vi crianças soltas
no tempo, em estrados
de concreto aparente.

Ouvi gritos histéricos
tambores, sussurros
e devaneios.

Insólita e só,
dancei Mozart
e declamei Hilda Hilst.

Desci às entranhas
e senti vida em galhos secos
e folhas soltas.
É inverno!



(or) Ação


Vertigens dogmáticas
Me levam ao chão
Onde lavo meus pecados
Em genuflexão



Pesadelo


Naquela noite de partida
Chorei
Gozo de despedida
Choro de futuro em preto e branco
Resultado de pacto de sangue
Feito branco no preto.
Tantos anos,
E, ainda, não consigo ver as cores
Tantos anos,
E, ainda, não consigo ver além das sombras
Só vejo as faces do medo
Só vejo as fases do medo
E(sobre)vivo usando disfarces
Despedindo-me do passado.


Rosana Banharoli
Santo André – SP (1960)


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Dora Ferreira da Silva




Koré

I

Não vi teu rosto.
Mas teu poder cada manhã nascia
para morrer nos carros de ouro do crepúsculo.
No espaço
a lua adormecia
sobre o sono dos mortos
e entre todos era belo teu rosto
claro mas indefinível
secreto.

Meu coração ardia
quando entre as sombras erravas
pelos caminhos frios.
Onde a marca de teus pés
tão finos
na extensão do mundo?

Teço violetas pequenas
busco o narciso selvagem
nas planícies distantes.
Meu Senhor virá sem que o vejam
meus olhos fartos do dia.
À noite
entre estrelas acesas
verei seus olhos sombrios.


II

Teu passo desliza para a esquerda
desenhando o pálido caminho.
Flor enrodilhada
rumo ao sol sombrio
que amor é o teu, feito de repulsa e ânsia,
traçando as pétalas da misteriosa dança?

Andarilha do limiar
ao centro te aventuras
despojada das vestes da alegria
no ouvido inscrito o canto sibilante
do vento
pela ramaria.

Do Hades enamorada,
trânsfuga do dia, danças
a dança do teu amor ausente,
deslizando na rosa em espiral
nascida de teu passo, pródiga semente.


III

Violetas e romãs
tuas flores, teus frutos.
Triste e sorridente nas cirandas da infância
o olhar mais fundo que as cisternas
negras tranças.
Entre as companheiras, esquiva e pensativa,
O regaço cheio de ramos,
descuidavas.

Abriu-se a terra, e ele surgiu
de raízes
nunca suspeitadas.
Relinchavam os cavalos, impacientes, sob o jugo.
E então colheu-te, sem remorsos,
como, por jogo,
violetas recolhias.

Mordeste a romã
e ficaste
Rainha da mansão sombria
viva entre os mortos
na túnica branca de menina.

eas voltas com o sol e a primavera
escolhida entre as flores.
Noturna no dia
e sob a lua
brilho de fonte amanhecida.



A Sibila



Nas praças, nos templos e olivais
um grito de louvor à Terra, dançai!

Vim sem o esplendor da aurora, mendiga,
não como as musas de outrora, dadivosas Diotimas,
vim mendigar o que há muito vos ofertei, Poetas:
sopro-vos à garganta dilatada, vossos olhos ceguei
para que o fundo olhar se liberte. Sibila em agonia,
há tanto silenciada, falarei por vossas bocas,
em vossos versos arquejará minha voz embriagada, rouca -
sustos e soluços, gritos, silvos, neblinas de esgares,
mares de canto e pranto. No tempo além do tempo
meus lábios murmuram por ti e perto dos templos derruidos,
a respiração do velho Mar, seus haustos e gemidos.

Mostra-me o silêncio o lacre escarlate, verbo indigente
dos mitos que sempre me uniram às setas de Apolo.
Há tanto minha palavra foi calada, os deuses recuavam...
Mas os poetas mantiveram-me viva. O mais ínfimo
deu-me de beber e em sua hídria refresquei meu rosto.
Sensíveis a meu sopro, os maiores coroaram-me de folhas verdes.
O nascimento do Poema é o silvo que Apolo harmoniza e Orfeu faz cantar.
Rompendo as cisternas escuras eu vim, raiz coleante
por entre as pedras e a secura. Dilacerada, arquejante,
acolhe-me Apolo em seus braços de névoa.
Gemidos rasgam mil caminhos na gruta: Ai, ai, oh...
A Sibila arrasta-se no pó, soluça, seus lábios deliram,
traça no ar os gestos incertos dos agonizantes, colhe flores
na neblina. Ai, ai, oh... Foram-se os deuses da Grécia,
só espelhos reflectem espelhos, o eterno assim se dá e esconde.

Onde Afrodite, a de róseos tornozelos, ungida de óleo incorruptível,
com seus perfumes, colares e pulseiras cintilantes?
Onde Ártemis, a de doçura selvagem? Foram-se as ninfas
e hamadríades! Nunca mais a vida estuante dos bosques,
suas flores e clareiras, onde Zeus e Hera adormeciam ao calor do dia.

Ai, ai, neblina, o que enlaçarão agora nossos braços?
Não mais que névoa e vento. Apolo, assim te afastas, e me deixas presa
à teia indecifrável destes sons selvagens? Aaa Oooo...
Em teu ombro dourado me apoiava, inventando poemas que ditavas
a meu secreto entendimento. Infeliz de mim! Agora
só posso tocar névoa e memória. Dissiparam-se Mundo e Palavra.

A Sibila chorou.

Nesse momento as coisas cessam, silenciosas,
atemorizadas. Os ventos param de soprar,
nas árvores as folhas não se movem.
Os rios adormecem e o gigantesco Mar
é liso e sem ondas. Paira sobre tudo um
SANTO SACRO SILÊNCIO

Perde-se na neblina a medida do Tempo,
tudo se abisma no silêncio, à espera
do alto Deus, meta dos séculos.

A Sibila abre os grandes olhos
e vê o Deus que nasce.

A Mãe, junto ao Menino, parece uma vinha
e enquanto a Lua surge, clara, ela adora
o Filho em seus braços. De ouro vivo é a Criança
e em resplendores toda a gruta se ilumina.
Luz nascida como o orvalho descendo do Céu à Terra
e em torno, suavíssimo aroma.
Anjos perpassam, alígeras borboletas
e cantam: Amém.

A Sibila sorri.

Um cântico novo brota em seus lábios, mas não é seu,
o infinito o modulou:

O aroma de teus perfumes é delicado
e teu nome, óleo que se derrama.
Serás novo júbilo e alegria...
Não repares em minha tez morena, que o sol queimou.
Irados, meus irmãos fizeram-me guardar as vinhas,
eu, esquecida da Vinha!

Ouço a voz do meu Amado batendo à porta
Lentos são meus pés e ao abrir a porta
o Amado já se foi. Corre minha alma
e o busca por toda a parte. Não respondes, Amor,
ao meu chamado?

Eu vos suplico, filhas de Jerusalém,
se o encontrardes
dizei-lhe que estou doente de amor.

O que tem ele - elas perguntam -
o que tem o teu Amado mais do que os outros
para que assim o busques, quase morta?

Meu Amado é róseo e brilhante,
meu Amado vermelho. Sua cabeça é de ouro puro,
seus cachos, negro-azulados.
Seus olhos são duas rolas
perto de um lento riacho.
Destila mirra
o lírio de seus lábios.
Sei que habita um jardim,
companheiros ouvem sua voz...
Oh, faze que eu também te escute!

Quem é essa que vem do deserto
como um cântaro apoiado a um peito amoroso?
Ele é um selo sobre seu coração,
sobre seu braço moreno,
pois o Amor é forte como a Morte,
seus centelhas são de fogo:
uma chama divina!

Dissipa-se na névoa um rosto efêmero,
mas a face do Amado permanece.


Dora Ferreira da Silva
Conchas - SP

(01/07/1918 - 06/04/2006)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Rodrigo Petronio



Enterrem minha alma em algum lugar sem luz


Enterrem minha alma em algum lugar sem luz.
Caminharei sem sombra pelos poços da noite entre galhos retorcidos e o ar escasso.
Pergaminho vivo, serei feliz sem nome, rosa túmida avessa ao ser,
Pela própria aniquilação embriagada.
Respirarei o espaço e as estrelas apagadas que unificam minha carne.
Não quero testemunhas. Livrem-se do meu cadáver.
O rebentar de uma só flor já me basta de homenagem.
Que todos os olhos se ceguem e todas as mãos sejam ceifadas.
E eu mastigado pela água em seu ranger de líquidos estalos.
O relógio das casas e sua oração de sinos quebrados.
Meu dorso não suporta o chicote de seus salmos.
À hora grave o sol engole todas essas planícies sem memória.
E somos tocados pela brisa delicada dos mortos.

Não há guerra nem renovação neste mundo limpo.
Não há nada mais sujo do que uma pessoa honrada.
Todos estão do lado da beleza. Todos estão salvos.
Vítimas se multiplicam e não há algozes entre estes ratos.
Senhor, dá-me teu doce flagelo.
Concede-me a honra de ser dentre os assassinos o mais baixo.
Para que a ferida expila o seu tubérculo na relva.
E nos desperte do sono miserável de nossas obras e nossos quartos.

Só tu, terra devastada que espelha o céu.
Só tu, oásis, beleza sepultada de Deus, onde brotam rosas violentas.
Só tu podes redimir nossa pobreza.
Na decomposição de minhas células serei finalmente unificado.
Aquieta-te, deusa primeira.
E bebe este vaso de sangue em teus poros.
Dá-me o halo de tua glória, celeste, miserável.


Rodrigo Petronio
São Paulo – SP (1975)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mariana Ianelli


Foto/Divulgação: Petronio Cinque


Herculano


Estranha manhã em Herculano,
Nos entrelaçamos como uma aranha.
Temos todo o tempo e o tempo é curto,
Em um minuto o passado elabora
O museu do futuro.

Podemos ainda amar a casa,
Encher as taças,
Inventar algum desejo pequeno
Com ares de importante.

Qualquer disparate
Nós podíamos, se quiséssemos,
Uma fresta de esquecimento
Onde tudo condensa memória.

Preferimos o momento ele puro, de calcário,
A fina arte da escultura.

Pouco importa a cara sufocada,
O corpo flagrado na posição do susto.
Passará a tempestade de pó,
A febre arreganhada passará, o escuro.

Não passará minha solidão socorrendo a tua.


Mariana Ianelli
São Paulo – SP (1979)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mariana Ianelli

Foto/Divulgação: Samuel Leon


O embate


Dois soldados na noite se procuram
Tendo aberto o flanco das milícias.
Desde que se pensam se perseguem
Na linha onde se crava a pontaria.

Jamais se vêem,
Mas sempre por um indício se aproximam
Quando a neblina se dispersa
E a terra amanhece remexida.


Alimentam o delírio do instinto,
São um para outro o desejo do impossível.
Entocam-se nos vãos distantes da mesma rocha,
Têm o mesmo sonho de guerra, a vida em risco.

O confronto, enquanto tarda,
É labareda.
O passo camuflado num bosque de cedros
Apanha o atalho que desemboca no infinito.

No princípio era o abrigo das trincheiras
E um inimigo sem rosto que afligia.
Houve então o duelo imaginado,
A esperança de um alvo, um rosto nítido.

Cumpriu-se-lhes armar uma estratégia
Para aguardar o adversário ao pressenti-lo.
Rompia um fim de tarde, subia o fogo,
O coração, por fora metal, se contraía.

Duas mãos tateavam o acampamento,
Mais duas mãos lavavam no rio as botas sujas.
Irmãos de uma rotina de vigília,
Traziam consigo o ódio de toda uma infantaria.

Acreditavam já se conhecer
Pelo que de si próprio conheciam.
Haviam deixado a retaguarda dos exércitos
Partindo cada qual de seus domínios.

E, mesmo que fracos, sem destino,
Quanta coragem, quanto afã: iam sozinhos.
Ainda agora planejam sua campanha,
Vão pela noite secretamente (ainda sozinhos).

Um sendo morto pelo outro,
Toda a alma da busca está perdida.
Mas não se matam, sequer se avistam:
Amam-se com o louco amor dos foragidos.


Mariana Ianelli
São Paulo - SP (1979)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

José Geraldo Neres



Outras margens


I

a correnteza de mãos abre o peito da insônia
uma neblina faz nascer um menino em
seu navio de espelhos
anoitece

no canto dos olhos
a morte do nome

anoitece

acordem. .meus olhos. .acordem

acordem as sombras do oceano
pranto de cordeiros

anoitece

pesado remos com pálpebras de água cortante
céu em aves carnívoras
o hálito do céu nos tornozelos
passos d'água presos na lama

anoitece

acordem. .meus olhos. .acordem
acordem os músculos da água
os braços do vento

anoitece

há uma face
vozes inclinadas
os passos da chuva nos cabelos
em formato de espada

anoitece

acordem. .meus olhos. .acordem


José Geraldo Neres
Garça - SP (1966)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Eliana Mara Chiossi


Foto/Divulgação: Ricardo Prado

Roseiral


Meu coração é uma rosa viva. Tem idade para despetalar e me desperta. Sou o pleno botão da rosa, em certas manhãs, na sua presença. A rosa viva é um bosque fechado, de onde ouço canções em outras línguas. Fadas indecisas trocam as peles e pintam o bosque de azuis variadíssimos. O bosque da rosa é meu coração, fechado quando você se ausenta. Tudo chove sem interrupções durante as viagens. Esta chuva circular faz do meu coração um charco. Meu coração está vivo e vira flor, quando a chuva abre as cortinas para sua chegada.


Eliana Mara Chiossi
São Paulo - SP (1965)