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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Reynaldo Bessa


Outros Barulhos


uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
“mamãe, o que elas têm?”

*

quando caí da rede
vi que eu existia mesmo
minha mãe apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu não existia mesmo
quando caí da rede.

*

o silêncio
do meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai

*

meu coração é um filho rebelde
ouve música às alturas, usa piercing,
fala estranho e está cagando pra mim.
sem me comunicar vai para os braços
de uma mulher que
adora me ver triste.
eu digo: o que é isso filho?
ele me responde:
foda-se véio.


Reynaldo Bessa
Mossoró – RN (196?)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Marize Castro



Égide


Agora a sua casa é o universo.
Suas vestes são as estrelas.
Seu sorriso são todas as flores
que se abrem neste pátio
e em tantos outros
que o mundo possui.

Agora ela é meu pai, minha mãe,
minha irmã, meus irmãos, amigos,
animais, as árvores do jardim desta casa,
as borboletas, lagartixas, os pássaros,
o beija-flor que é sempre outro
e é sempre o mesmo.

Agora ela é agasalho – abriga-me.
É véu – protege-me.
É céu – ergue-me.


Marize Castro
Natal – RN (1962)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Iracema Macedo



Invenção de Eurídice


Havia os cabelos de Eurídice incendiando a praia
E os homens com suas redes esperando

Orfandades arrastadas sobre a areia
era assim que vinham os peixes
era assim que as palavras vinham,
sem ar,
com olhos vitrificados

Havia os cabelos de Eurídice soltos
como velames
cortando os ventos
semeando bichos que se alastravam

Eram quase mãos, os cabelos de Eurídice,
Tentando agarrar alguma coisa
Buscando alcançar uma alegria, um êxtase,
Uma dor que fosse
qualquer coisa quebrada,
algum resto, um destroço

ou algas e conchas dentro das ondas


Iracema Macedo
Natal - RN (1970)