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quarta-feira, 16 de março de 2011

Salgado Maranhão



Sexydade


Vou abrir artérias
em teu cimento,
em tua alma de slogan,

te violar;

vou cavar um duto
em teu coração de gueto,

arar teu saara.

Não adianta fugires
com teus cadáveres
no micro-ondas,
com tuas bundas S. A.

Vou te desmontar,

iluminar os buracos
da tua cara.



Caniboys

I

Não se matam mais humanos para consumo,
pra fazer mingau de vísceras.

Não se matam mais em rituais
com tambores em volta da fogueira:
o olhar da presa esbugalhado
e heróis uivando para os deuses.

Matam-se pelo que não tem nome.

Mudaram-se os dígitos da insânia cíclica
no site da morte e sua noite metafísica.


II

O que quer um matador
em sua alma de aluguel
e seu coração de breu?

Por acaso busca o céu,
ao destroçar sua presa
com a devoção de quem reza?

Por que lhe negar revanche,
ao decretar seu desmanche?

O que move um matador
na explosão do disparo?
Algum diamante raro?

Algum tesouro escondido
que se evola no estampido?

O que busca um matador?
Busca – por acaso – grana?
Busca, na infâmia, fama?

Acaso, a vida é o dízimo
de sua igreja de abismo?


Salgado Maranhão
Caxias – MA (1953)

domingo, 10 de outubro de 2010

Salgado Maranhão



Deslimites 10
(Taxi blues)



eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
– eu sou a luta.
o que há sido entregue aos urubus
e de blues
em
blues
endominga as quartas-feiras.
– eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou o ferro. eu sou a forra.

e fogo milenar dessa caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco as estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
eu sou a lança,
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouço a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

Eu sou a luz em seu rito e sombras
– esse intocável brilho.


Salgado Maranhão
Caxias – MA (1953)