Mostrando postagens com marcador * Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador * Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de maio de 2012

Alberto Bresciani





Sorte


Tardio ainda assim
eu me invento

Vozes chegam
de outro tempo

e devolvem
meu silêncio

Nele calo o medo
e todo o corte.



Marghe(rita)


Não valem os dias
além dos corações
que neles batem
São caminhos

Essa única vista
me verte o sim
Você fala por ela
e repete as imagens

A porta que abre
verdeja
e floresce
para dentro do corpo

história maior
do que antigas lembranças

Do teu nome,
margaridas nascem sobre a lava.



Hora desmarcada


I

Quando chegou
estava de saída

já não era cedo
para querer

era tarde
para o desejo


II

As legendas
quase claras

as leituras
turvas, trocadas


III

Arremesso
de som


arremedo
de ar


IV

Desde
antes

no topo
da queda

desencanto
e medo.



Miragem


Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho – ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?


Alberto Bresciani
Rio de Janeiro – RJ (1961)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ivan Junqueira





Lição


À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.





E se eu disser


E se eu disser que te amo - assim, de cara, 
sem mais delonga ou tímidos rodeios, 
sem nem saber se a confissão te enfara 
ou se te apraz o emprego de tais meios? 
E se eu disser que sonho com teus seios, 
teu ventre, tuas coxas, tua clara 
maneira de sorrir, os lábios cheios 
da luz que escorre de uma estrela rara? 
E se eu disser que à noite não consigo 
sequer adormecer porque me agarro 
à imagem que de ti em vão persigo? 
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro 
em tua ausência - essa lâmina exata 
que me penetra e fere e sangra e mata.





Quando solene e agudo


Quando solene e agudo eu te penetro, 
mais agudo que o gume de uma adaga, 
e à tua ilharga, que de suor se alaga, 
me enlaço como quem abraça um cetro, 
e lambo a tua espádua que naufraga 
sob o sêmen fugaz com que perpetro 
em ti o que não falo ou mal soletro 
tal o peso do pasmo que me esmaga, 
sou como um rei na cripta de uma vaga 
cuja espuma engalana cada imagem 
ou palavra que ruge na voragem 
das páginas sagradas desta saga. 
Quando me afundo em ti, útero adentro, 
como Deus, numa esfera, estou no centro.





Prólogo


Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vertebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.


Ivan Junqueira
Rio de Janeiro – RJ (1934)

domingo, 21 de agosto de 2011

Igor Fagundes




a pergunta


o que esperar da vida: a espera pela célula
em cujo núcleo um mapa estampe a travessia
como se os pés apenas fossem a genética
e não houvesse o passo atento ao imprevisto

o que esperar da vida: uma época ou história
medida pela causa e o efeito dos destinos
como se os dias fossem puro ardor da lógica
enquanto as noites desafiam o esclarecido

o que esperar da vida: uma ética vendida
às equações do bolso, a compra de terrenos
em bocas, beijos, glúteos, gulas por vagina
e coca-cola, e cocaína se houver tempo

o que esperar da vida: uma hérnia, uma metástase
a histérica traída, a volta cancerígena
do cônjuge à morada, à cama que é só lágrima
– virótico anticorpo que é de si o antígeno

o que esperar da vida: um tédio com vacina
remédio para o mal e para o bem, assim
na cura das fraturas, das dicotomias,
se em cada não há uma fartura de algum sim

o que esperar da vida: o sim e seu avesso
um erro como acerto, o incerto da procura,
o livre-arbítrio do que enruga nos espelhos
e o precipício dos sorrisos em loucura

o que esperar da vida: a vida já tão dita
que esvai sem se dizer, sem ser sua fé divina
acesa nesta rima em nós tão cínica
o que esperar da morte: a sorte decisiva



ponto zero


antes da reta, da seta, de um lastro
de vida, o fiapo de um ponto, a fagulha
de um passo, a febre sem dono que espera
do vácuo, o sopro de um corpo em costura

menos que fio, fracasso da fala
quando, na trama, impossível dizer
pelas agulhas do verbo os espaços
abertos na hora em que puxam, pespontam
a linha de que o silêncio é o empuxo

menos que o zero: o sem-número, a núpcias
de deus com si mesmo, o nada com coisa
nenhuma, ausência fecunda, a que (a)funda
o canto poético em campo magnético
em magma quântico, em verso pré-ôntico
disperso em águas sem frinchas, sem fundo

no fluxo máximo, o pleno repouso
– dança que gesta esse imóvel que a gera
e a esgarça rumo ao que houver de infinito
em seu limite, no ventre dos ocos
preenchidos, pais do que segue indistinto:
navio gêmeo do próprio vazio
que, do horizonte, o especula em destino



resenha

Le mie poesie non cambieranno Il mondo.
Patrizia Cavalli


me cansa quem me acusa de erudito
apenas porque o verso é bom, não minto
enquanto pedem viço pós-moderno
assumo que meu texto eu não defeco
agora pronto: causa impacto o verbo
e de repente alcanço mais prestígio

me cansa quem abusa das firulas
no jogo de palavras quase extintas
parece que o prazer se faz na busca
ao dicionário, na edição antiga
ou num vocábulo que nada diga
senão o vazio de quem só rebusca

me cansa quem me exige estar despido
tal qual um réu à frente de um juiz
se sou o que não sou e até o que finjo
importa a quem (?) se morro ou se feliz
apago o que rascunho neste giz
ou me abro sob um punho comedido

me cansa quem me cobra engajamento
no mundo desigual, como se atento
ao meu redor, não fosse um poeta lânguido
ensimesmado no ópio mais romântico
onde me engajo apenas no que invento
e não me engasgo se as palavras canto

me cansa quem se apega ao que não anda:
como a utopia, desde sempre, manca
e a cada vez que um atolado empaca-me
com gritos contra a fé decassilábica
me cansa toda inveja, mesmo as brancas
(e aqui não há racismo, isso me cansa)


Igor Fagundes
Rio de Janeiro – RJ (1981)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Léa Madureira Lima




As cercanias do outono


Sementes pulam das gavetas
buscando a promessa do chão.
Agulha e linha costurando
a indiferença de retalhos.
Da ríspida palavra, o corte.

No emboço da parede, a angústia
resistia à demolição.
Do adulto a permanente infância,
memória visitando a dor.
Perdidas vozes, brincadeiras.

Não conheço o tranquilo voo
do azul em lassidão de outono.
Nua é, das asas, a incerteza
da liberdade. E a solidão
em metamorfose do sono.

O riso refletido em taças
de cristal, os dedos feridos.
Da louça inglesa vão-se os cacos.
E o estardalhaço de talheres
zomba da casa em cinza e prata.



O destino


Não possuo a chave.
Não sei quantos passos.
O sermão renego,
se o caminho é pássaro,
atingido ao laço.
Que o destino é um bêbado
conduzindo o cego.

Já dancei o frevo
e deixei o palco:
meio às palmas, o eco.
Me encontrei num trevo
de Brasília ao medo.
Que o destino é um bêbado
conduzindo o cego.

Não sei onde quero.
Não sei quantas voltas.
Me envolvi no afeto
que essa dor acorda
ao fechar a porta.
Que o destino é um bêbado
conduzindo o cego.

Quantas vezes devo
vaguear à noite.
Se me perco é certo
perceber indícios,
pedra limo esguicho.
Que o destino é um bêbado
conduzindo o cego.



As cores do pasto


Arames nos moitões dos alambrados
tranquila inquietude, às cores do outono.
O milharal, sob pendões descansa
em meio ao verde, amarelados...
Dançam rebanhos e cercas
imersas na alquimia. Cantando, torcendo
a roupa na tina, as mulheres.
Fortuita, encolhe-se a angústia
...dos que têm fome,
dos que morrem de vontade.

Cavaleiros ao tronco laçam reses.
Encurralado o gado no vermelho
matizes do eito, não mastiga mais.
Atípico inverno fustiga a ilusão
...dos que secam de desejo,
dos que ardem.

O branco e o azul contemporâneos,
a mesma raça, além, do nome, o mesmo ser
que do contexto verdadeiro da história,
abre o verbo, grita e muge, seca arde morre
e no processo age – ruminante é o pasto.


Léa Madureira Lima
Rio de Janeiro – RJ (19??)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Igor Fagundes



o fim da palavra


o infinito começa onde termina
a palavra, onde escapa algum sentido
que, à distância, não deixa de ser íntimo
jamais além dos corpos, estes cosmos
cujo caos em tensão lhes dá o princípio

o infinito não sabe o longe e o perto
os contém e até nós, os contornados
extraviamos a pele e nele imersos
nos perdemos em mar sem tempo e espaço
como aquele onde singra todo afeto

o infinito alcançamos pelo abraço
e por ele se encorpa em nós um gesto
e mais outro, e mais tantos, feito as águas
que do atlântico tangem cada estômago
de fluído ácido e agora em sal completo

o infinito precede a linha reta
nela inscrito, surpreende o sucessivo
– vige no antes e no entre dois pontilhos:
simultâneo ao caminho, nunca a meta
se ele mora aqui mesmo, no interstício

o infinito termina onde começa
a palavra, e mais esta que lhe oferta
o batismo: a palavra que o limita
com seu som e sentido – o de infinito
apesar de infinitas todas elas


Igor Fagundes
Rio de Janeiro – RJ (1981)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Araripe Coutinho



Como alguém que nunca esteve aqui


I

Espero como quem assina o nada
Na face de Deus. É minúscula a centelha, mas ilumina
O mundo. E pode o teu calor trazer
A febre, esses anos todos de rica
Agonia. Tua espera, teu exato momento
De pôr fim a todas as coisas. Ao homem
Que me roubaste a saliva, ao quase ateu
De mim.

E ainda que eu revele o nome do rei
É certa a vaga e o limo. Atrás de tudo
Que sei revela o quanto te chamo.
Um barco, algumas caravelas e ele
O marinheiro, o único. O meu.


Araripe Coutinho
Rio de Janeiro - RJ (1968)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Denise Emmer



Lampadário


Minha mãe anda distante
meu pai a leva nos braços
avisto lençóis no espaço
os avós já vão mais longe

viajam todos num barco
levados por um ciclone
transitam vias sem nome
que desembocam no frio

onde estarão os antigos
antepassados , os tios,
as asas do irmão sombrio
tudo é poeira e palavra

haverá além do nada
um povoado abstrato?
já não me bastam retratos
se não me cabe o silêncio.


Denise Emmer
Rio de Janeiro – RJ (1958)