quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Benoni Araújo




port bou: a fronteira de um atrabiliário


trouxeram-te a melancolia por herança
ninguém a suportaria
destinatário desta solidão
amigos te escreveram & escreveram
as cartas nunca chegaram
refugiado numa rua de mão única
dela fizeste tua trincheira
uma esperança tão inútil
quanto as asas de um anjo
[filho predileto teu olhar teu horizonte
estilhaçados]
nem tudo melhora depois de uma guerra
amor morte selos postais: o que mais
caberia em tua maleta de passagens?
já não corres atrás de uma aura
mal atravessaste os pirineus
caíste na última fronteira da razão
nem te adiantaria colher flores
à margem de um rio
[resolveste te juntar a elas!]




na trilha de Kerouac


decerto que o coiote venceria
            o deserto
sugaria seus cactos
                                   & se lançaria colina abaixo
/já que você amarrou seus sapatos/
desatou-se de todos os destinos
nada deterá o caminho
muros & montanhas removem-se
                                                        ante teus passos
uma luz atravessa teus olhos
a busca nunca será vã
                                       & deixa rastros na estrada
tua herança vertiginosa
acenderá o uivo na madrugada
vejo a pérola sob teus pés
quero ar que movimenta
poeira em precipício
                                       por overdose de vida



silencifrado


aprendi a infernizar o mundo
assumi a nave da loucura
soerguida a bandeira da solidão
arrisco-me navegar à deriva
seguir a luz que me guiará
                                                   à destruição
me mexo do lado [de dentro]
me estremeço do lado de fora
dou diversos nomes ao fogo
[em seguida queimo-os!]
fui capaz de um hospício para abrigar
a poesia
                essa miséria louca
é perigoso acostumar-se a ela!
procuro ocupar um lugar já ocupado
um método para destruir deus
& aguentar as pontas/ segurar/ manter
Se preciso enterrar-me com a literatura


benoni araújo
Belém – PA (1968)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ivan Junqueira





Lição


À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.





E se eu disser


E se eu disser que te amo - assim, de cara, 
sem mais delonga ou tímidos rodeios, 
sem nem saber se a confissão te enfara 
ou se te apraz o emprego de tais meios? 
E se eu disser que sonho com teus seios, 
teu ventre, tuas coxas, tua clara 
maneira de sorrir, os lábios cheios 
da luz que escorre de uma estrela rara? 
E se eu disser que à noite não consigo 
sequer adormecer porque me agarro 
à imagem que de ti em vão persigo? 
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro 
em tua ausência - essa lâmina exata 
que me penetra e fere e sangra e mata.





Quando solene e agudo


Quando solene e agudo eu te penetro, 
mais agudo que o gume de uma adaga, 
e à tua ilharga, que de suor se alaga, 
me enlaço como quem abraça um cetro, 
e lambo a tua espádua que naufraga 
sob o sêmen fugaz com que perpetro 
em ti o que não falo ou mal soletro 
tal o peso do pasmo que me esmaga, 
sou como um rei na cripta de uma vaga 
cuja espuma engalana cada imagem 
ou palavra que ruge na voragem 
das páginas sagradas desta saga. 
Quando me afundo em ti, útero adentro, 
como Deus, numa esfera, estou no centro.





Prólogo


Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vertebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.


Ivan Junqueira
Rio de Janeiro – RJ (1934)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Neuza Pinheiro




Medo
que um filho adoeça
que uma árvore não cresça
o céu desabe sobre a minha cabeça

Medo
que meu homem não volte
que algum deus se revolte
a lua se canse e desapareça

Medo
que o tempo não baste
que a vida me falte
eu
des
aconteça...



ver reversos

ver-me avesso a conchas
sem mastros
arcabouços

ver-me solto
aprisionando versos

versos
Cães Desiderycus
o Dom de ver
é velho

e num transe
ver-me verme
a grama cravejando orvalhos

ver
é tão vermelho...



aquele rio bem podia ser o meu passado

o meu passado bem podia dar naquela nuvem

aquela nuvem bem podia ser
a minha sombra

a minha sombra
bem podia dar
naquela árvore

aquela árvore
bem podia ser
a minha vida

a minha vida
bem podia dar
naquela fábula

aquela fábula
bem podia ser
a minha história

a minha história bem podia dar
naquela estrela

aquela estrela bem podia ser o meu destino...



cada peça
no corpo do poema
quando se arma o jogo
é alfabeto de chamas
palavra escrita em fogo

significar
é aniquilamento
eu acredito

atributo divino
onde Tudo começa
o Nada Infinito


Neuza Pinheiro
Arapongas – PR (1949)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cleberton Santos

Foto: Ricardo Prado


Quixote


Poeta quixotesco, em papel imaginário,
faço meus poemas com tinta do amoroso orvalho
que recolho dos olhos da amada.

Amada de corpo d’água, cabelos de sal, olhos de estrela,
amada pintada pelas cores da alvorada,
amada recitada pelos mares e céus.

Fazer poesia é inventar amadas em castelos de vento.



Caruru dos Sete Poetas

No chão comemos o caruru dos 7 poetas
Entre versos e tachos e sinestesias e bacias

Os poetas revivem a festa das matas africanas
De seus lábios ecoam os ritmos ancestrais

Rodam no terreiro cavalos de poesia
A palavra sibila no atabaque do malungo

Todos cantam na força da magia
7 poetas comem caruru recitando euforias



Menestrel


Vi ontem na roda de poesia
Um poeta de voz alta
Quando seus poemas recitava
Não era alegre, não era triste, não era nada...

Era apenas um poeta que o mundo recriava
Em sonhos em ritmos em palavras...

Um poeta sem chapéu sem terno sem gravata
Recitando para as pedras os cânticos da alvorada...


Cleberton Santos
Propriá – SE (1979)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Mariano Shifman




Teoría y práctica de la mariposa


Aleteando a contraluz es oscura,
en plenitud de sol es naranja
junto al verde que la sustenta.

Si se posa en un tallo, gozo
el manso lienzo de sus colores.
Cuando parte hacia la sombra de un árbol
sé que no lo volveré a ver

la mariposa es un instante.



Chicas cosmopolitan


Somos la avanzada de un nuevo tiempo
y nuestra meta, como la tuya, es conquistarlo.
Distinguimos cada día de la semana
como el cosquilleo en cada dedo del pie;
enhebramos las cuentas de nuestros días
con pulso agudo y gritos de victoria.

Sabemos los labios que convienen a nuestros labios;
sabemos las lenguas de la porción radiante del mundo.
En nuestra gama de colores, suficiente es igual a nada
y un segundo trago tibio tiene gusto a ocasión perdida.

Nuestros puntos siempre se escriben sobre las íes
porque evaluamos el peso cierto de cada punto
 y aparte.

Somos la avanzada de un nuevo tiempo,
números áureos, presente continuo.
¿Quién será digno de sostener nuestras miradas?

En vano alzará la vista quien no lo sepa:
tanto esplendor, aunque se lea en veinte versos
es sol eterno.
Nuestras historias nunca se acaban.



Otra parábola de los talentos

Porque al que tiene, le será dado, y tendrá más;
Y al que no tiene, aun lo que tiene le será quitado.
Mateo, 25:29


En las primeras tardes de otoño
mientras el verde se dora
y lo altivo se apaga
no es mal destino un banco de plaza
un poco de tiempo
y jugar al juego de Dios.

Convocadas al suave sustento
unas palomas comen de mi mano,
fuente de toda ración y justicia.

Y hay pan hasta el hartazgo;
y a las que tienen, más se les dará.
Pero las otras, imperdonables por tardías,
volarán con su vacío hacia otra parte.

Nada del otro mundo, después de todo:
mi Ley sigue el curso natural.


Mariano Shifman
Lamas de Zamora – Argentina (1969)

domingo, 23 de outubro de 2011

Lêdo Ivo




O jumento


No alto da crestada ribanceira
pasta o jumento.  Seus grandes dentes amarelos
trituram o capim seco que restou
de tanta primavera.
A terra é escura.  No céu inteiramente azul
o sol lança fulgores que aquecem
tomates, alcachofras, berinjelas.
O jumento contempla o dia trêmulo
de tanta claridade
e emite um relincho, seu tributo
à beleza do universo.



Os morcegos 


Os morcegos se escondem entre as cornijas 
da alfândega. Mas onde se escondem os homens, 
que contudo voam a vida inteiro no escuro, 
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos 
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros 
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero 
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos 
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige 
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas. 
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.




O voo dos pássaros


Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.
Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.
Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.

Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.
Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sobre nenhum pássaro.
Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.

Em voo, como os anos, a vida, o tempo...

Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.



Lêdo Ivo
Maceió – AL (1924)

Seleção: Sergio Alves Peixoto

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Al Berto



mektoub


a luminosidade é uma placa de zinco suspensa
do céu do deserto

em redor
a imensidão das areias vibra contra o caos
de pedra e de eufórbios que se multiplicam
a perder de vista

o bafo inquieto dos cavalos acende
a pólvora das festas inesperadas

uma coruja morre
no cimo açucarado da tamareira

caminhas
sitiada pelo canto agudo do muezzin
chamando à oração

mektoub

sítios onde a vida cessou e tudo está escrito
há séculos – onde o coração dos homens
é uma rosa nómada e calcária

no limite da escassa água e desta terra seca
mal abençoada – caminhas
na plana noite das ardósias
nas jeiras de súplicas e recolhimento onde
talvez se esconda
o contorno quase terno do rosto de deus



incêndio


se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão



febre


sopra um vento pelo peito do mareante – vento
cinzento capaz de apagar os gestos que restam e
de limpar os passos incertos pelas ruas do cais

vento
um vento que te sacode as veias os tendões
faz vibrar os músculos e a mastreação – como a árvore
que se desprende das entranhas do mar

corre
corre um vento pelas fissuras da pele – vento
de pó enferrujado abrindo feridas nos animais vivos
colados à memória onde
uma serpente mergulhou no sangue e
desata a fulgurar

sopra um vento pelo peito do mareante
desperta a florescência pálida do plâncton – varre
a noite e lava as mãos dos condenados à morte

corre um vento
vento de febre – sismo de orquídeas que acalma
quando acendes a luz e abres as asas
vibras e
levantas voo


Al Berto
Coimbra – Portugal
(11/01/1948 – 13/06/1997)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lívia Natália


Foto/Divulgação: Márzia Lima


Rastro


Somos todos feitos da poeira de estrelas.
Elas apenas tangenciam nossos sonhos
inscrevendo-os na pele do infinito.

O grão de brilho puro
rouba sua luz da memória do sol.
E, em sendo lembrança só,
gira fugidio à orla do céu imenso.

Há, na trama retecida da minha alma,
um ressoar silente como o das estrelas,
a que chamo angústia,
apesar da poeira luminosa e viva
que trago debaixo dos pés.



Memória Filogenética


Meu corpo, parco limite terrestre,
é todo feito do sobejo das estrelas caídas.
Soterradas, elas exploram os subterrâneos de meu afeto,
iluminam minhas vilezas,
descortinam o que há de pérfido,
e vão.
Revelam os cantos carcomidos pela espera,
apontam crimes e pecados
apenas sonhados.

Mas é na superfície absurda do sonho
que vivo.
Numa esfera delicada por onde olho o mundo.

Resto de astro celeste que sou,
brilho ainda quando tudo em mim se faz escuro
e breu.
E há sempre um espaço ínfimo,
no cerne da palavra jamais dita,
onde se abre um flanco pálido de luz.



Canção do Silêncio


Um carnaval me atravessa violento,
meus ouvidos apenas digerem algo do que se ouviu,
numa oficina lenta de mastigar palavras.
Minhas gengivas sangram mudas,
tanto colorido de pura sofreguidão
é como a morte nos descampados da primavera
imensa.

Para além da flor em seu perfume,
há a vespa e o áspero do seu ferrão.
Meu grito de dor e calma,
este mesmo que vaza grosso de meus olhos,
imita a voz das cigarras.

Amigo,
aprenda agora
que a cigarra não morre cantando.

Jamais.

Dentro dela vive uma ferida sem remédio,
ela abriga no seu ventre
um corte nascido de dentro,
que dilacera as entranhas.

No seu ventre moram medos insondáveis.
E um corte que sangra alto.

Toda cigarra,
como eu,
morre gritando!


Lívia Natália
Salvador – BA (1979)

sábado, 27 de agosto de 2011

José Inácio Vieira de Melo


Foto/Divulgação: Ricardo Prado


Registro da fala do silêncio



O que mais tem falado em mim é o silêncio,
mas um silêncio plural – de fogo –
que com sua língua escarlate abrasa as palavras
e as queima antes de serem.

Um silêncio de lá, de longe – das plagas interiores –
que fala o tempo todo sem dar nome ao dito.

Em sonho é imagem: e vejo, inebriado,
a sua cara – semblante formidável:
tão formoso quanto pode ser um deus.

O silêncio, este que fala e de que tanto falo,
é um hieroglífico poema,
e estes versos: tradução e codificação.



Aurora


A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.

Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.

Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.

Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.

De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.



Fronteiras


Perdido sem lua nem uivo,
para mim só tem um caminho:
riscar esporas no vazio.


José Inácio Vieira de Melo
Olho d’Água do Pai Mané – AL (1968)