segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Iolanda Costa



feito cabras correndo no pasto


I

habitas a minha fome de saber-me órfã, por inteiro. e tudo o mais foi feito para acompanhar-me: a compra, o doce, a louça, a palavra louca encharcada de mel e própolis.

II

e quem precisará de companhia? verterei os flancos, os caminhos inteiros obstruirei. farei orações, brincarei com gatos e me alimentarei apenas do necessário. o etílico e o retórico serão esquecidos e, aos sábados, visitarei a minha filha.

III

não me tragas o mundo! quero esquecê-lo quando estiver segurando as ameixas. do meu ventre, nenhuma tormenta. e a paz aos meus pés andados.

IV

no equinócio não esquecerás de trazer-me as flores e eu te agradecerei com almofadas e sopa quente. leremos os irmãos grimm e sonharemos com cabras correndo no pasto.

V

cedo ou tarde à infância voltarei e às suas intransferíveis lembranças. mas nunca compreenderei o porquê de sândalo, bartolomeu, e agamenon terem esses nomes e serem crianças. e eu já apreciava vocábulos de coisas chamadas.

VI

persegues, então, essa mulher de olhar pervagante que se ocupa de questões absolutamente desnecessárias, não crê na política de cotas e outras novidades que não toquem no humano de nós: olho aberto para o invisível e a minha cara na frente do espelho.

VII

e não temos o nítido olhar do girassol e nem a gosma discreta das lesmas. minha cabeça está na varanda. por entre o olho e o afago, o alho, a fuga, a bandeja e a toalha: “Berra, cabrinha, põe-te mesinha! Berra, cabrinha, tira a mesinha!”. e tudo obedecia.


Iolanda Costa
Itabuna – BA (1967)

6 comentários:

  1. Iolanda traz no verbo a força subterrânea do lirismo selvagem. É uma escritora! A sua poesia é do tipo que encanta e reverbera na alma. Gosto dos seus escritos e gosto também da pessoa. Iolanda inspira e escreve: é uma mulher importante na história de muitas gentes e participa como promotora de poesia da minha vida universitária. A bela e jovem artista que estava por lá e foi embora: FESPI/UESC. E deixou sementes férteis dentro de nossas almas juvenis. Iolanda é eterna! Rita Santana

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  2. Leio você e esqueço do planeta terra. De fato, fixo residênica em Marte, como tanto sonhei. Você é a minha condutora poética. Eu sou o vento palavra que vai em nome das construções e desconstruções sintáticas. A forma mórfica dos seus vernáculos são alucinógenos para os olhares humanos e desumanos. Sou todo seu fã.

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  3. Amiga, eu não tenho o "nítido olhar do girassol e nem a gosma discreta das lesmas..." mas posso perceber, ver e sentir , desse meu jeito sem jeito, o seu sensível cuidado com as palavras lambuzando-as de mel literário, deixando as marcas do seu coração e da sua incontida dedicação em cada criação artística! Gostei muito de sua foto, dessa sua intenção... enfim, sou sua fã! Ray Santana

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  4. Amor, maior que os ventos,
    os vulcões, as explosões,
    maior que a natureza,
    os sertões, inundações e depressões,
    mananciais, florestas,
    amor germinal, sutil,
    dado por morto,
    cristalizado,
    em venturas naufragado,
    nas masmorras
    e nos templos da alma.
    Amor, amor maior,
    que numa dobra do destino,
    ressuscitou das sombras,
    doce vírus se alastrando
    em vertigem,
    o fogo dos mil anos,
    paixão fulgente,
    alvoroçando o sangue,
    o coração,
    cerzindo desvelado
    as cicatrizes e a flor
    dos amantes.

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